Oct 12, 2026 ·
O monte que ninguém vê
Há uma cena que se repete em todos os processos de selecção que conduzi. Fim da tarde, o prazo de candidaturas fechou, e sobre a secretária (ou no ecrã) está um monte de currículos. Cento e vinte, às vezes trezentos. Tenho uma vaga, uma chefia à espera de uma lista curta e pouco tempo.
O que se segue custa-me sempre dizer em voz alta, porque é injusto: a maioria é descartada em segundos. Não por serem más pessoas ou maus profissionais. Mas porque cometeram um erro evitável que me deu, ali, uma razão fácil para passar ao seguinte.
Depois de mais de 30 anos a ler currículos, posso dizer-lhe que os erros que eliminam candidaturas são surpreendentemente poucos e surpreendentemente repetitivos. Não são erros de talento. São erros de apresentação, de atenção e de estratégia. E, a melhor notícia de todas, corrigem-se numa tarde.
Neste artigo, vou mostrar-lhe os sete que mais vejo, pela ordem do estrago que fazem. Para cada um, explico:
- como se manifesta na prática;
- o que o recrutador pensa quando o vê (sim, vou ser honesto);
- como corrigir, com exemplos antes e depois.
No fim, deixo-lhe um teste de quinze minutos para verificar o seu próprio currículo, antes que seja outra pessoa a fazê-lo.
Um aviso antes de começarmos: ao ler cada erro, é provável que reconheça algum no seu currículo. Isso é normal e saudável. Todos já cometemos pelo menos um. O que importa é o que fizermos a partir daqui.
Primeiro, perceba como se decide num monte de currículos
Para perceber os erros, convém perceber o contexto em que são vistos. E aqui há uma verdade desconfortável: quem recruta raramente tem tempo para ler. O que faz é varrer.
A primeira passagem
Na primeira leitura, o olhar percorre a página de cima para baixo, à procura de respostas rápidas:
- Quem é? (nome, função, cidade);
- Faz o que eu preciso? (cargo recente, competências, sector);
- Tem provas? (resultados, empresas, formação);
- Há algo que me preocupa? (erros, buracos, desorganização, exageros).
Se as três primeiras respostas forem boas e a quarta for "nada", o currículo passa para a pilha de "talvez". Se a quarta tiver sinal de alarme, fica por ali.
É por isso que os erros pesam tanto. Um currículo forte com um erro grave perde para um currículo médio sem nenhum. Parece injusto, e muitas vezes é, mas é assim que funciona quando há centenas de candidaturas para ler.
E os sistemas automáticos?
Muitas empresas usam sistemas de triagem (ATS) que organizam as candidaturas e permitem pesquisar por palavras-chave. Não rejeitam toda a gente sozinhos, como se diz por aí, mas se o sistema não conseguir ler o seu currículo, ou se as palavras certas não estiverem lá, o recrutador pode nunca o ver. Vou mostrar, nos erros seguintes, onde isto acontece.
Uma regra de bolso
Pense assim: o seu currículo não precisa de convencer o recrutador de que é o melhor. Precisa, primeiro, de não lhe dar nenhuma razão para o descartar. Depois, de lhe dar três boas razões para o chamar. Os sete erros que se seguem são as razões mais comuns para o descarte.
Erro 1: o currículo "para toda a gente"
É o erro número um, e de longe o mais frequente. Um único documento, enviado a vinte vagas diferentes, sem mudar uma vírgula.
Como se manifesta
- O resumo fala de "novos desafios" sem dizer quais;
- A função-alvo não é clara: parece que serve para administrativo, comercial e atendimento;
- As competências são uma lista geral, sem relação com o que a vaga pede;
- As palavras do anúncio não aparecem no currículo.
O que o recrutador pensa
"Esta pessoa não leu a vaga. Não sei o que quer, nem se quer isto. Não tenho tempo para adivinhar." E passa ao seguinte. Quem recruta quer sentir que o currículo foi escrito para aquela função, mesmo que o corpo seja o mesmo.
Como corrigir
Não precisa de escrever um currículo novo de cada vez. Precisa de um currículo-base e de uma adaptação de quinze minutos:
- Leia a vaga e sublinhe o título da função, as cinco ou seis competências principais e os requisitos obrigatórios;
- Reescreva o resumo com o mesmo título (se for verdade que é o seu perfil) e os dois ou três termos mais importantes;
- Reordene os pontos de cada experiência, colocando primeiro os mais relevantes;
- Alinhe as competências com as da vaga que realmente tem;
- Corte o que não ajuda esta candidatura.
Antes e depois
| Antes | Depois | | --- | --- | | "Profissional dinâmico à procura de novos desafios." | "Assistente administrativa com 6 anos de experiência em gestão de agenda, arquivo e atendimento, à procura de uma função de apoio à direcção." | | Competências: Word, Excel, Internet, vendas, informática, comunicação | Competências: Excel (nível avançado), gestão de agenda, atendimento ao cliente, arquivo e organização documental |
Duas candidaturas bem adaptadas valem mais do que vinte genéricas. Por experiência própria, e por muito que custe a quem está desesperado, menos é mais.
Erro 2: uma lista de tarefas, sem um único resultado
Imagem do artigo
Se o erro 1 faz o currículo parecer genérico, o erro 2 faz o profissional parecer genérico. É o segredo mais mal guardado dos currículos fracos: dizem o que a pessoa tinha de fazer, e nunca o que ela conseguiu.
Como se manifesta
- "Responsável pelo atendimento a clientes";
- "Tratava de assuntos administrativos";
- "Colaborava com a equipa de vendas";
- "Apoio ao departamento financeiro".
Todas estas frases são verdadeiras. E todas são iguais às dos outros cinquenta candidatos. O recrutador lê-as sem aprender nada de novo.
O que o recrutador pensa
"Está bem, trabalhou lá. Mas fez alguma diferença? Ficou melhor por ela lá estar?" Sem prova de impacto, o currículo vira ruído de fundo.
Como corrigir: a fórmula
Verbo de acção + o que fez + resultado (ou dimensão)
| Tarefa (fraco) | Resultado (forte) | | --- | --- | | "Responsável pelo atendimento a clientes." | "Atendi em média 40 clientes por dia, resolvendo dúvidas e reclamações no primeiro contacto, com taxa de satisfação de 95%." | | "Apoio ao departamento financeiro." | "Registei diariamente facturas e pagamentos e preparei o fecho mensal, reduzindo o tempo de fecho de cinco para três dias." | | "Colaborava com vendas." | "Apoiei uma equipa de 8 vendedores com propostas e relatórios, contribuindo para superar a meta trimestral em duas ocasiões." | | "Tratava de compras." | "Negociei com 15 fornecedores e reduzi os custos de compra em cerca de 10%." |
"Mas não tenho números"
A desculpa mais comum, e quase nunca é verdade. Se não tem percentagens exactas, procure a dimensão:
- Quantas pessoas, clientes, projectos ou fornecedores?
- Com que frequência (por dia, por semana, por mês)?
- Que orçamento ou volume geria?
- O que mudou depois da sua intervenção?
E use estimativas honestas: "cerca de", "mais de", "em média". Um número aproximado e verdadeiro é infinitamente melhor do que nenhum.
Um exercício que recomendo
Pegue em cada ponto do seu currículo e faça a pergunta mais irritante do mundo: "E então?" "Atendia clientes." E então? "Resolvia as dúvidas deles." E então? "Muitos voltavam a comprar." Aí está o resultado. Escreva isso.
Erro 3: um formato que nem a máquina nem a pessoa conseguem ler
Todos nós já abrimos um currículo que parecia um cartaz: duas colunas, ícones por todo o lado, barras coloridas para "mostrar" o nível de Excel, uma fotografia no meio do texto. Muito criativo. E muito difícil de ler.
Como se manifesta
- Duas colunas ou caixas de texto, que baralham a ordem da leitura automática;
- Tabelas e gráficos de "nível" (barras, estrelas, percentagens) para competências e línguas;
- Ícones em vez de palavras para telefone, email e morada;
- Contactos no cabeçalho do documento, onde alguns sistemas não os lêem;
- Currículo em imagem ou digitalização;
- Fontes decorativas, fundos coloridos ou texturas;
- Títulos criativos: "A minha viagem", "O que eu sei", "Quem sou eu".
O que acontece, na prática
Se o sistema de triagem não consegue ler o ficheiro direito, a pessoa que o abre vê uma sopa de letras: o cargo misturado com a data, o nome da empresa colado ao telefone. Já vi currículos lindíssimos chegarem ao recrutador assim, ilegíveis.
E se for um humano a ler, as barras de competência dizem muito pouco: o que significa "Excel 80%"? Que sabe 80% do Excel? De quê? Para quê?